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Não confundir com Stendhal. É mesmo Estendal, esse apuradíssimo instrumento de aferição civilizacional.
Entrei com facilidade no fecundo universo das letras, de tal modo que nem consigo precisar em que momento exacto cruzei formalmente o tão ansiado umbral da leitura. Lembro-me dos primeiros dias de escola, das minhas tentativas trapalhonas e preguiçosas de desenhar letras dentro das linhas paralelas do caderno, do prazer inebriante de rabiscar no quadro negro. Vejo-me logo de seguida, em instantes de crueza fotográfica, sentada junto à imensa janela por onde o sol meigo de Outono alaga a sala, o dedo a deslizar pelos carreiros de letras no livro da primeira classe, o olhar azul da professora Lídia a amparar a leitura, o calor maternal do seu braço sobre os meus ombros a segurar os resvalos.
O mundo das letras sempre (me) foi intuitivo, acolhedor e absolutamente pleno de sentido(s), um amplo e infinito salão de baile aos Domingos à tarde, um parque de diversões numa noite de Junho, um universo mágico inesgotável, tantas vezes vivido debaixo da tenda improvisada dos lençóis, à luz da lanterna verde que o pai se arrependia de ter comprado, tão cara que tinha sido e mesmo assim descarregava as pilhas tão depressa, vá-se lá saber porquê.
Nunca consegui tirar dos números a mesma intimidade prazerosa, apesar da admiração que lhes tenho. Os números são laboriosos e organizados, multiplicam-se e reflectem-se no mundo, nas formas mais maravilhosamente coordenadas, demandam precisão na tecedura, rigor nos preceitos. Nem mesmo nas brincadeiras os números abandonam a sua condição sistémica, desmanchando a reinação ao menor sinal de batotice desregrada.
Os professores de matemática que fui tendo, na sua infinita bondade, fizeram o favor de compensar o meu esforço muitas vezes atabalhoado mas honesto com uma positiva modesta no final dos períodos. Ao contrário das letras, que me fazem sentir aconchegada, coisas com números deixam-me sempre insegura. Dificilmente memorizo sequências numéricas por mais básicas que sejam, como números de telefone, pins de cartões ou matrículas.
Tenho pena, a sério. E agora, perante tantas reiteradas, infrutíferas e profundamente decepcionantes tentativas, experimento um razoável receio que as forças cósmicas me castiguem por esta minha falha e nunca me deixem ganhar o euromilhões.